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Foi no início desse século XXI que a esquerda começou a ser chamada com mais vigor de “esquerda caviar”. Tratava-se de desmerecer qualquer discurso progressista baseado em direitos que apontasse para alguma demanda de igualdade, através da denúncia de uma incoerência entre padrões de vida do orador e aqueles para quem seu discurso se dirigia. A possibilidade de misturar uma vida de alto padrão com ideais igualitários era em si uma enorme contradição. Diziam: se quiser lutar pelos pobres, abra mão de suas posses e seja um também.

Não durou muito tempo pois tratava-se de um critica superficial entre mensagem e ação. Pautada pelo campo moral, nunca foi muito além de talvez ampliar (e muito pouco) alguma culpa entre militantes de esquerda que vez por outra consumiam bens com preços mais salgados ou ostentavam padrões de vida melhores para si. Tal “contradição” já havia sido resolvida por Joãozinho Trinta quando dizia que quem gosta de pobreza é sociólogo. Pobre gosta e de riqueza e a esquerda, também.

A resposta óbvia, porém, não desnecessária, é que o problema da riqueza não é o consumo mas sua forma de produção e reprodução. Em síntese, não se tratava de quem tem dinheiro distribui-lo individualmente, mas sim de criar mecanismos para que a acumulação não se desse de forma desigual, garantindo que a distribuição de renda e riqueza se realizasse. O Estado seria o melhor (se não único) meio para tanto. Fim do primeiro capítulo.

Passaram-se alguns anos do governo petista e vieram as crises de corrupção. Começada com a denúncia do ilibado Roberto Jeferson e o mensalão, tal crise evoluiu ao longo do tempo até chegar na lava-jato. Nesse período um novo léxico surgiu, em contraposição aos “coxinhas” vieram os “petralhas”. Tratava-se de acusar qualquer ser humano que ousasse vestir uma camiseta vermelha ou pelado viesse a dizer qualquer palavra elogiosa em relação a gestão federal em curso, aquele passava a ser um interlocutor conivente com a malversação de recursos públicos, com o enriquecimento ilícito e por ai vai. Em síntese, diga-me com quem andas que te direis quem és: tratava-se de um corrupto por tabela.

Mas tal crítica não batia fundo pois muitas pessoas anti-petistas, de centro, direita ou mesmo de esquerda, conheciam outras muitas pessoas reais que se enquadravam na categoria “petralha” mas eram exceções. Ou seja, no universo conhecido aquele termo não valeria, sendo apenas aplicável às figuras públicas do partido, ou aos militantes abstratos, muitos deles supostamente dispostos a transformar o Brasil numa Venezuela.

A resposta simples e clara era a de que a produção de um ódio público nacional contra um grupo político era algo comum na história, sempre orientada pela disputa de poder. A excepcionalidade dos conhecidos que apoiam o governo não serem praticantes e nem alinhados com as práticas denunciadas ficava como incomodo do discurso contraditório. Era melhor não discutir, até porque os grupos contrários beneficiados de tal disputa eram também praticantes dos mesmos procedimentos, apenas nunca tinham sido devidamente investigados.

Eis que para a surpresa geral da nação entra em cena um novo léxico: o #isentão ou isento governista. Segundo a definição trata-se agora da pessoa que não é petista mas também não adere a manifestações contra um partido ou o governo pois a roubalheira não seria exclusiva deles; ou daquele que se utiliza da comparação histórica ou com outras agremiações políticas para justificar sua conivência. Como resultado, aponta a definição, cria uma falsa dualidade entre aqueles que são petistas ou tucanos, esvaziando a política de outras alternativas ou possibilidades, obrigando o conjunto da população a tomar parte no jogo limitado às duas posições.

Criado pelo mantenedor de um sitio auto-referenciado como “de direita autentica”, o pregador diz iniciar uma jornada pela criação de soluções não dualistas aos conflitos em curso. Acusa que todos os partidos e políticos atuais estão envolvidos e que é preciso ser contra a corrupção independentemente de onde ela venha. Ao mesmo tempo em que acusa o governo, pede ao PSDB que deixe a oposição livre para quem verdadeiramente a queira exercer no país. E termina, entre suas muitas mensagens, abrindo o jogo para a real crença por traz de tanta fumaça: acabar com o Estado brasileiro e seu sistema partidário, o grande mal de tudo.

Para além da questão metodológica, de criticar a dualidade criando uma nova, esse novo léxico esconde algo muito interessante do conjunto desse discurso: a crítica generalizada a todos os partidos e políticos é uma crítica ao conjunto do sistema democrático brasileiro. Com elogios à polícia federal e ao sistema judiciário (conhecidamente tão corruptos quanto os poderes executivo e legislativo), parece não transparecer uma única coisa que talvez seja fundamental – as instituições elogiadas são aquelas que não recebem nenhum voto para o exercício de seu poder.

É inegável que o sistema político brasileiro tem muitos problemas. Do financiamento das campanhas e accountabilty dos gastos às coligações partidárias. Mas já dizia Churchill que esse é o pior sistema de governo mas melhor que todos os outros já experimentados. Valendo a mesma coisa para o Estado: com todos os seus problemas de burocracia, captura por interesses privados etc, ainda assim é o único meio pelo qual interesses divergentes podem ser mediados e, pasmem, processos de concentração econômicos podem ser regulados. Aqui a prosa é longa, não pra ser desenvolvida nesse pequeno comentário (que já ficou longo). Mas é muito cansativo passar por disputas semânticas-ideologicas durante tanto tempo e perceber que o pano de fundo tático é sempre o mesmo: deslegitimar às reais motivações de quem se filia ao pensamento de esquerda como visão de mundo transformadora para o benefício de todos.

Não se trata de defender a corrupção, para interesses privados ou de partidos; não se trata de defender o Estado como maquina inchada e ineficiente; nem muito menos de defender o fim do sistema econômico. É simplesmente poder ter a liberdade de acreditar que a democracia é o melhor meio para resolver conflitos em comunidades heterogêneas e desiguais como é a nossa sociedade; que o Estado é necessário para promover a igualdade que o mercado “naturalmente” é incapaz de produzir (pela regulação do próprio mercado e pela provisão de meios e bens, quando necessários); que existe uma geopolítica de interesses internacionais, para muito além das fronteiras dos países, que precisa de força e legitimidade do poder público para se contrapor e defender interesses de populações especificas; e que acreditar na racionalidade do ser humano é apostar na sua capacidade de diálogo e de fazer política.

Acusando que existe alienação na dualidade atual, o léxico novo cria uma nova alienação: da sociedade do consenso e da ausência de conflito. Da sociedade da paz e da liberdade na qual não existem divergências. A sociedade na qual todos tem as mesmas oportunidades apesar de serem diferentes.

Acontece que a sociedade realmente existente é desigual e não há nada mais autoritário do que negar esse conflito, ainda mais negando a política. A formula não está em criticar tudo e todos, deslegitimando as instituições. Do contrário, está em encontrar os caminhos para fortalece-las, para aumentar a participação social, o controle cidadão. Mas para uma plataforma que diz aceitar todas as formas de pensamento desde que concorde com o seu, democracia e voto parecem um pouco demais.

É preciso tomar muito cuidado. Em tempos de ódio crescente e comunicação instantânea, toda solução parece bem-vinda. Buscamos referencias e formulas fáceis para entender a realidade e agir nela. Mas nem sempre estas facilidades estão disponíveis, e generalizações geralmente são o caminho mais rápido para… o erro. Sim, precisamos de consensos contra a corrupção e pela paz. Mas é preciso fazer dentro de um ambiente democrático, com instituições em pleno funcionamento e Estado presente para garantir direitos, inclusive daqueles com os quais temos divergências. O “mundo livre” pelo qual a plataforma advoga não é uma abstração, é necessidade real ainda inexistente. E é papel de cada um de nós construí-lo a cada dia, pelo fortalecimento da democracia, e não pela sua negação. O resto é fumaça ideológica para produzir novas formas, por vezes até mais sofisticadas, da boa e velha alienação.

 

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O Estado e a Sadia

Dizem que quem vê o processo de produção de salsichas nunca mais come salsichas. Como além de pratico, acho esse alimento muito saboroso, sempre preferi não ver – mesmo sabendo que o pior cego é aquele que não quer ver.

Transformando a imagem em metáfora, são muitos os processos em nosso cotidiano que é preferível não conhecer. O atendimento em restaurantes, os cálculos de juros, atendimentos telefônicos, consultas medicas, etc. Há uma ficção em nosso cotidiano que mantem nossa crença nos serviços, produtos e instituições.

Com o Estado não é diferente. O sociólogo francês Pierre Bourdieu apontava a produção de símbolos como uma das mais estratégicas funções do poder público. Símbolos em sentido amplo, da confiança na moeda à confiança na lei. O conjunto de signos que regem o funcionamento da sociedade passa pela produção estatal. Ainda mais no estado moderno que serve como regulador de grande parte da vida do conjunto dos cidadãos.

É possível enveredar para o debate clássico da ciência politica entre Hobbes, Locke, Montesquieu e Rousseau e a relação entre indivíduos e sociedade. É uma longa discussão que fundou tradições para entender liberdades e deveres numa coletividade humana. Mas independente da vertente filosófica adotada, voltamos ao ponto inicial: o Estado produz símbolos.

Como uma fabrica, com suas rotinas e procedimentos, interesses e conflitos são analisados, processados e se tornam regras por meio de comandos e leis proferidas e conferidas por agentes investidos de mandato público. Também como numa fabrica, os cidadãos conhecem muitos dos insumos (interesses) e produtos finais (leis e regulamentos), nem sempre tendo clareza sobre as dinâmicas internas entre os pontos.

Recentemente, com o advento da tecnologia, foi enorme o avanço do Estado no sentido de dar transparência para seu funcionamento. Iniciado com o sangue do sistema, o orçamento público, chegou-se a extremos de abertura com praticamente todos os processos acessíveis a qualquer cidadão. No Brasil, por exemplo, com a Lei de Acesso a Informação (LAI), salvo informações definidas legalmente como sigilosas, todos os demais tramites estão disponíveis para quem tenha interesse em conhecer.

Com isso, não apenas os números se tornaram abertos, mas todo e qualquer procedimento que um cidadão tenha interesse. Certamente um passo importantíssimo para a radicalização da democracia.

O que não se previa era que ao mesmo tempo em que a maior abertura geraria maior controle e fiscalização, teríamos um segundo efeito: a transparência da fabrica de salsicha.

Ao saber a precariedade com que muitas das decisões e analises são feitas rotineiramente no serviço público, com cada vez maior clareza, a população também se vê apta a questionar a legitimidade daquilo que o Estado produz. E aquele que possui praticamente o monopólio na produção de símbolos em diversos campos, o Estado passa a ter sua autoridade em cheque quando tal falta de consistência é exposta a luz do dia.

Ao contrário do que alguns podem pensar, esse processo é e deve ser irreversível. É bom para a sociedade conhecer as entranhas da sua fabrica de salsicha. E o que se coloca para os trabalhadores dessa fábrica é aproveitar essa abertura para renovar seus processos, limpar seus insumos e aumentar a qualidade do produto que entrega ao cidadão.

Imagina se a Sadia abrisse ao público sua linha de produção? Não venderia mais salsichas. Mas o Estado tem o dever de abrir sua produção pois não vende salsichas mas produz símbolos que precisam ser legítimos perante sua sociedade.

Com a transparência está colocado o grande desafio ao Estado do Século XXI, reconquistar a legitimidade de seus atos sendo eficiente e profissional em suas decisões. Todo momento de transição é doloroso e a mudança das rotinas passadas, já cristalizadas, para novas praticas condizentes com as demandas sociais é vagarosa. Mas é preciso ter em mente que o erro não está em abrir a fábrica; estava em mantê-la fechada servindo à população um produto cancerígeno e de baixa qualidade. Com abertura de suas informações e processos, somente com entregas de qualidade o Estado resgatará seu lugar legitimo de produzir símbolos e ser respeitado pelo conjunto da sociedade.

A autoridade a ser conquistada virá da produção, de grandes mudanças, e não apenas da justificativa dos erros passados em seu funcionamento. Mais que uma crise, os que acreditam na importância do Estado e seu papel tem a frente uma grande oportunidade de construir as bases de uma nova fase da vida pública brasileira. A abertura e transparência são apenas o começo.

TSU – nami?

Mesmo que a pronuncia correta seja “Sue”, a nova rede social  recém-criada (quem precisar de log, pode usar o meu: kfernando) traz uma proposta inovadora que vai muito além do seu nome: a distribuição dos valores monetários produzidos nela! No momento em que as redes sociais se tornam dos maiores espaços de sociabilidade e a discussão sobre direitos de propriedade chegam ao nível mais íntimo de cada perfil, uma nova plataforma surge e pode colocar tudo de cabeça para o ar.

Se vai ou não dar certo, não é a questão. Mesmo que seja mal sucedida, a ideia já aponta para uma nova forma de organização do trabalho no futuro. E é isso o que importa.

No idos dos anos 2.000, ao participar do lançamento do livro “O nome da marca: McDonald’s, fetichismo e cultura descartável” da Isleide Fontenelle, o Eugenio Bucci fez um comentário de ressoa no ouvido até hoje:

1) as televisões são remuneradas pelo pagamento de propaganda cujo preço é definido pelo horário e tempo de exposição;

2) a medida desse “valor” é calculado pela audiência que tal propaganda terá em função do numero olhares que irá captar naquela exposição (medida de audiência multiplicado pelo período contratado);

3) portanto, ao assistir televisão, cada um de nós estamos gerando valor para o canal de televisão (em termos banais, o Bucci fez uma conta de que 24 horas do olhar de uma pessoa valeria praticamente um salario mínimo a época).

A mesma logica da TV vale para a rede social, mas com uma agravante: na TV somos passivos e apenas consumimos o conteúdo (olhar). No máximo, a gente liga pra um telefone ou compra algum produto. Na rede social, além de ler, ver fotos e curtir publicações, nós ainda produzimos conteúdos com nossas postagens.

Se por um lado a rede nos “remunera” dando publicidade a nossas ideias, por outro, são nossas ideias que levam as pessoas a acessarem as redes – e são esses acessos e olhares que os remuneram na venda de patrocínios (além da venda de nossas informações pessoais). A partir dos lucros dessas plataformas é possível estimar que a publicidade que recebemos para nossas postagens (pouco mais de 3% de seus amigos recebem suas publicações nas timelines deles) é muito pouco frente ao valor que agregamos na própria rede – mesmo que esta tenha seus custos. Estamos trabalhando praticamente de graça.

E aqui o TSU entra como inovação: uma rede social que remunera seus usuários por aquilo que publicam, em função do numero de pessoas que curtem, compartilham e comentam suas publicações.

Se por um lado tem um aspecto de super-capitalismo no qual todo olhar possui seu preço (hiper-monetização da vida), por outro a plataforma coloca em questão a propriedade do valor gerado por esses olhares e atividades. Se vai funcionar pouco importa. O TSU pode ter aberto uma porta importante que nos permitirá rever toda a estrutura de geração e distribuição de valor na sociedade. Se vale pra publicação em rede social, porque não pode valer para produção cultural, intelectual, jornalística, etc?

Talvez seja possível, a partir desse paradigma, repensar a estrutura de trabalho com bases em novas formas de agregação de valor que não apenas o tempo de trabalho exclusivo e dedicado. E se estamos gerando valor a todo momento, viver gera valor. Portanto, cada ser humano poderá ser remunerado apenas por estar vivo. Fato: o futuro está em disputa e são muitas as “janelas” de oportunidade pela frente.

(É possível avançar e discutir a Renda Básica de Cidadania para além de um direito em bases de solidariedade humana. Teríamos o mesmo efeito com todo mundo sendo remunerado só por viver, mas sem a ideologização na disputa pelo conceito de direito. Talvez um assunto para outro post).

Compreendendo o UBER

Ontem tive minha primeira experiência com o UBER. Tirei até selfie com o carro preto, num sentimento glorioso de entrar no futuro. Apesar da demora para aceitar a viagem (isso é um problema, demorou bastante para conseguir um carro, mesmo morando no centro da capital), fomos gentilmente recebidos por um motorista bem vestido que nos abriu a porta de um belo carro de luxo.

Sentados confortavelmente no banco de couro, além da água disponível (o que é fantástico!), ele nos perguntou sobre a temperatura e a música, querendo tornar a nossa viagem o mais agradável possível. Novamente, bom demais.

Pelo aplicativo fomos acompanhando a viagem, ainda um pouco inseguros quanto aos custos – a ausência de taxímetro causa estranhamento para quem está habituado com golpes de motoristas e costuma ficar esperto pra não pagar mais do que deve. Com muita tranquilidade, o motorista nos explicou que o cálculo é feito pelo aplicativo, e que é “bandeira 1” em qualquer período, para qualquer distância. A conta começou a incomodar: como é possível um serviço “de luxo” com tantas “regalias” ser menos custoso que o antigo TX. Na realidade, era só bom demais pra ser verdade! rsrs

Perguntei então ao motorista: e esse carro, é seu?. A resposta meio truncada era que um “parceiro” havia adquirido o veículo e eles dividiam a conta. Seguindo a conversa, explicou que na realidade, era o parceiro que havia comprado o carro e “ele pagava com a prestação do serviço”. Não consegui informações sobre quais eram os termos do acordo (qual a taxa que o “parceiro” estaria cobrando para que ele pudesse dirigir) mas ali aumentava o incomodo original: era possível que o motorista ganhasse mais no UBER do que consegue receber no arranjo tradicional de táxi (um baita problema de mercado no qual licenças são “alugadas” por motoristas e o dono da licença não faz nada além de receber pelo seu privilégio – ter uma licença). Mas também era plenamente possível que o trabalhador-motorista ficasse em uma situação ainda pior no UBER do que aquela que estava no táxi tradicional. Não havia qualquer regulação de valor entre o dono do carro e o motorista…

Chegamos ao destino. Novamente a porta nos foi gentilmente aberta. O aplicativo fez as contas e informou qual seria o custo debitado diretamente no cartão previamente registrado. A viagem foi agradável mas perdi um pouco a sensação de futuro. Ainda assim, foi bom acessar a realidade sem filtros.

O UBER é uma baita ideia, de ter um aplicativo que coordena milhões de motoristas no mundo todo para fornecer o serviço de transporte com qualidade. É ótima também a ideia de padronização do serviço com agregados (como água e gentileza) além dos carros em excelente estado. E fazer isso com avaliação de passageiros (para a segurança dos motoristas) e de motoristas (para a segurança dos passageiros), cadastrando o cartão para não depender de troco ou dinheiro em espécie, são avanços adicionais (já existentes em outros aplicativos como Easy Taxi ou 99).

Mas futuro será o UBER entrar de verdade na era da Economia Colaborativa. Em primeiro lugar, só autorizando que donos de carros dirijam seus próprios carros. Na ausência dessa condição a situação dos motoristas pode ser até pior que no transporte comum – e aí o Estado precisa entrar para impedir situações de super-exploração.

E o futuro mesmo está para além da supressão da relação entre dono do carro e motorista. Virá quando a plataforma for gerida pelos próprios motoristas, donos de seus carros, auto-coordenados para a prestação do serviço e compartilhando os ganhos da atividade.

Como conclusão, infelizmente, o UBER ainda é muito mais uma possibilidade de economia colaborativa do que uma prática em curso. Ainda há muito chão pela frente para que esse tipo de iniciativa represente de fato aquilo que o futuro nos guarda como possibilidade da melhoria de vida de todos e de cada um. O futuro do UBER como está hoje não parece nada além de aumento das possibilidades de exploração dos motoristas por donos de carros (velha relação capital-trabalho) e da plataforma sobre os donos das licenças (poder de monopólio). Infelizmente.

Interessante a iniciativa da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República​ de discutir o Empreendedorismo de Vanguarda no Brasil. Num documento longo (272 páginas), temos 37 páginas com a grande ideia; 11 páginas com tópicos explicativos dessas ideias; e 230 páginas de Minutas de Projetos de Lei para essas medidas. A proposta é boa, tem muitos pontos interessantes, outros polêmicos (como a flexibilização das universidades públicas) e outros nada inovadores (como a criação de um Prêmio de Gestão Pública, que já existe há tanto tempo mas nem é citado no documento). Mesmo assim, tem mérito (mais por pautar o debate, do que pelas medidas e a forma como as propõe).
O estranho: pra uma unidade inovadora no Governo, que deve pensar o futuro, o método é fundamental. E fazer um debate com ares de gabinete, construir um longo documento e concretizar isso em Projetos de Lei não pareceu muito inovador (nem de vanguarda).
Como não conheço o processo, achei uma bela iniciativa. Mas se é pra ganhar tons de Século XXI (e mudar as coisas), poderia ter menos escolástica jurídica, ser menos legalmente propositivo e ter mais iniciativas de mobilização e participação social. Afinal, onde estão os coletivos de produção cultural? As novas empresas horizontais e em rede? A economia criativa? A economia solidária, auto-gestionária? As novas formas de financiamento coletivo? As moedas sociais? Os laboratórios de inovação (FabLabs e Hackerspaces)? E tantas outras iniciativas que já estão construindo coisas muito interessantes mas carecem exatamente de reconhecimento público…
Vale a leitura (principalmente das 37 páginas iniciais) e seguir com esse debate, ele sim, estratégico.
http://www.sae.gov.br/wp-content/uploads/EMPREENDEDORISMO-VANGUARDISTA-FINAL-FUNDO-CLARO-2.pdf

Minha contribuição para o debate sobre a Copa

Texto que tive a honra de publicar no Portal Carta Maior: